sexta-feira, 16 de abril de 2010

A quem serve a imprensa?

Martim Avillez Figueiredo sai da direcção do 'I' e deverá ser substituído por André Macedo, actual director-executivo, convidado a assumir o cargo. O agora ex-director do 'I', detentor de 5% do capital, confirmou esta tarde ao DN que deu um ultimato à administração do jornal, com um prazo - 20 de Abril - para que lhe fosse dada uma resposta que travasse a sua demissão definitiva.
O diário vive momentos de indefinição devido às dívidas do seu accionista, o Grupo Lena, que rondam os 600 milhões de euros e que, por isso, necessita de vender os activos que detém na área da comunicação social.
“Mandei uma carta à administração, a exigir responsabilidades”, disse Martim Avillez Figueiredo ao DN, adiantando que “neste momento não é” um pedido de demissão, mas que este eventual cenário “vai depender da resposta da administração”, que esteve reunida na sequência desta missiva.
O DN sabe que a direcção do 'I' já sentia há algum tempo a falta de apoio da administração. Fonte do jornal adiantou à Lusa que Avillez Figueiredo vai sair do cargo de director, mas que André Macedo só dará uma resposta à administração na segunda-feira. Foi o próprio André Macedo que anunciou à redacção do jornal a demissão do director.
O Grupo Lena necessita de encaixar dinheiro para fazer face às necessidades de financiamento para cumprir o plano de investimentos com os quais a 'holding' está comprometida: até final de 2011 necessitará de 140 milhões de euros, 46 ainda este ano (ver relacionado).
A Sojormedia, empresa do Grupo Lena que detém o 'I', estabeleceu contactos com a Impresa, mas no mês passado fonte da 'holding' de Francisco Pinto Balsemão disse ao 'Jornal de Negócios' que a proposta foi analisada, mas que não houve interesse em avançar.
Antes do lançamento do 'I', Martim Avillez Figueiredo revelou à comunicação social que o jornal representaria um investimento global de 10,4 milhões de euros. "Dará resultados positivos dentro de cinco anos. É possível tornar rentáveis produtos de informação bem feitos", vincou em Março o agora ex-director do 'I', prevendo que, com o lucro operacional que o jornal poderia dar a partir de 2013, estaria em condições de ser vendido por cinco vezes o valor do investimento (ver relacionado).
"Sinto que defraudei quase cem pessoas"
Numa carta dirigida ao presidente do conselho de administração do grupo Lena e distribuída hoje à redacção e a que a Lusa teve acesso, Martim Avillez Figueiredo refere sentir-se "defraudado".
"Fui defraudado, a minha dignidade profissional foi defraudada: sinto que defraudei quase cem pessoas que acreditaram em mim, no projecto que patrocinei e no qual verdadeiramente empenhei o meu nome", refere.

DN de 16/4/2010
Director recusa "desfigurar" o jornal
Avillez Figueiredo sai defraudado da direcção do 'I'
Na carta, o director demissionário menciona ainda a redução de custos que lhe foi pedida pela administração e que considera "desfigurar" o projecto para que foi desafiado para liderar em Julho de 2008.
"A dimensão da redução de custos que o presidente do conselho da administração da Sojormedia Capital agora me mandou implementar - redução essa aprovada por V.Exa. - irremediavelmente desfigura o projecto, tornando absolutamente impossível o cumprimento dos objectivos que me foram traçados", defende.
Martim Avillez Figueiredo dá um prazo à administração do grupo Lena para voltar atrás na decisão de reduzir os custos.
"O mais tardar até ao dia 20 [terça-feira], dever-me-á informar se pretende reverter as directrizes inviabilizadoras do projecto 'I' para o qual fui aliciado", disse.
Avillez Figueiredo pede ainda à administração que, no mesmo prazo, o informe "transparentemente, quais as perspectivas profissionais reservadas para os colaboradores do 'I'".
O diário 'I' - publicado de segunda-feira a sábado - chegou às bancas a 07 de maio do ano passado.

O meu comentário ao texto acima:


Dinis Evangelista
16.04.2010/21:37

Todos sabemos que há crise na imprensa, particularmente na escrita. Penso que essa crise vai subsistir enquanto não houver alteração de critério, isto é, quando os jornais passarem a ser feitos para os leitores, objectivo que actualmente está, em alguns casos, fora de questão. O que acontece é que os jornais são feitos em moldes que os anunciantes não retirem deles a publicidade, pois esta é a sua principal fonte de receitas. Se o jornalismo tivesse em vista o leitor e a sua inteligência, talvez não necessitasse de sujeitar-se à "humilhação" que é "portar-se dentro de determinados parâmetros" para que não lhe falte a publicidade. Devia pensar o contrário: produzir bons trabalhos de investigação e de opinião para que não lhe faltem leitores.

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